(Lendas)

Oni: demônios, Setsubun e o lado de fora

O oni é o demônio de chifres do folclore japonês. Veja o Setsubun, Momotarō, a clava de ferro e por que o grito pede que ele saia.

Nicholas Nishimura Atualizado 8 min de leitura

O oni tem chifre, clava e uma função que a casa repete todo ano: sair. No Setsubun, alguém veste a máscara, o outro atira soja, e a frase pede que o demônio fique do lado de fora e a fortuna do lado de dentro. Fora da festa, o mesmo corpo vermelho ou azul aparece no conto de Momotarō, na viga do templo, na gravura que ensina a não seguir um desconhecido montanha acima. O oni é o nome forte do que não deve morar na sala. Às vezes, paradoxalmente, a casa o contrata para espantar coisas piores.

鬼

oni

Demônio, ogro, o de fora. A palavra é antiga e cobre mais de um tipo de medo.

Ele não se confunde com o tengu da montanha, embora os dois assustem quem sobe sem cuidado, nem com a yuki-onna, que é o inverno com outro rosto, nem com a kitsune, que negocia. O oni expulsa ou é expulso. A negociação não é o seu gênero principal.

O corpo que a máscara fixou

A imagem de festival é estável. Pele vermelha ou azul-esverdeada, dois chifres, cabelo em juba, boca aberta com presas, tapa de tigre na cintura, kanabō na mão. A kanabō é a clava de ferro, grossa, às vezes com pinos. “Dar uma kanabō a um oni” virou expressão: é dar ainda mais força a quem já é forte, um reforço desnecessário e perigoso.

Esse corpo é um figurino vencedor, consolidado em séculos de pintura e de teatro. Por baixo dele há oni de outros formatos: o espírito de um morto rancoroso, o bandido de um desfiladeiro, a doença que entra na aldeia, o estrangeiro transformado em monstro por um relato de guerra. A palavra é larga. A máscara é estreita de propósito, para a criança reconhecer na hora quem deve levar a soja.

Vermelho e azul, muitas vezes em par, ajudam a montar a cena do Setsubun com dois voluntários. Não são “raças” com mitologia separada e coerente em todo o país. São cores de elenco. Um oni só já basta para a casa pequena.

Setsubun, soja e a idade mais um

O Setsubun cai na véspera do início da primavera pelo calendário tradicional, em geral 3 de fevereiro, às vezes 2 ou 4. Não é o Ano-Novo de 1º de janeiro, embora gente de fora misture as duas festas. É a virada da estação, quando o inverno precisa ser empurrado para fora junto com o mal que ele guardou.

A frase é oni wa soto, fuku wa uchi. Fora, oni. Dentro, fortuna. Alguém da família, ou um convidado nascido num signo que a casa considera adequado, pode vestir a máscara e fazer o papel de quem é expulso. Os outros atiram grãos de soja torrada, fukumame. Come-se depois um número de grãos igual à idade mais um, um pedido de mais um ano de vida. Em templos e santuários, a cena ganha arquibancada, celebridades locais e sacos enormes de soja. Em casa, cabe na porta da cozinha.

鬼は外、福は内

oni wa soto, fuku wa uchi

Fora o oni, dentro a fortuna. O grito do Setsubun, com soja torrada.

Há casas que não dizem “oni wa soto”, por estarem ligadas a santuários onde o oni é tratado com outro respeito, ou por um tabu local. O Japão real corrige o guia turístico nesses pontos. A frase famosa é a majoritária, não a universal. Perguntar, num templo, como eles fazem o Setsubun evita a cena de atirar soja contra um rito que aquele lugar não pratica daquele jeito.

A soja não é uma arma contra pessoas. O voluntário da máscara entra no jogo. A criança aprende que o mal tem forma e que a forma pode ser mandada embora com um gesto repetível. É pedagogia de calendário. Funciona porque volta todo ano, não porque a soja tenha um mecanismo secreto.

Momotarō e a ilha

Momotarō nasce de um pêssego que desce o rio até um casal idoso. Cresce forte, parte para Onigashima, a ilha dos oni, e no caminho ganha a companhia de um cachorro, um macaco e um faisão, cada um conquistado com uma parte do bolinho que leva. Na ilha, vence os oni, recupera tesouros roubados e volta herói.

O conto é infantil na superfície e claro na estrutura. O herói vem de fora da reprodução comum, de uma fruta, e enfrenta o de fora absoluto, a ilha de demônios. Os animais são aliados que precisaram ser alimentados antes de serem fiéis. Os oni são ladrões, não uma nação com diplomacia. A história ensina coragem, partilha e o direito de ir buscar de volta o que foi tomado.

Ela também ensina um recorte: o oni como bandido externo, derrotável, sem point of view. Outras histórias dão ao oni um motivo, uma dívida, até um amor. Momotarō não é obrigado a fazer isso. É um conto de expedição. Usá-lo como única definição do oni é como definir o lobo só por Chapeuzinho. Serve à criança. Não esgota o bosque.

Viga, telhado e o demônio empregado

Templos budistas colocam oni nos portões e nas telhas. O medo espanta o medo. Uma face horrenda na viga protege o salão de males que não ousariam passar por ela. O mesmo movimento acontece com outros seres: o que assusta é posto de guarda. O oni do Setsubun é expulso. O oni da telha é contratado. A contradição é só aparente. Os dois trabalham para a casa, um saindo, o outro vigiando quem chega.

Nas montanhas há relatos de oni que rapta e de oni que, apaziguado com oferta, deixa de atacar a vila. Há o Shuten-dōji, oni de um ciclo de lendas da capital, derrotado por heróis com artifício e bebida, parente distante da serpente que Susanoo embebeda. Há festas locais em que a máscara de oni abre o cortejo em vez de fechá-lo como vilão. O emprego muda. O chifre continua, para ninguém esquecer com quem está falando.

Namahage, de Akita, merece uma linha à parte para não ser engolido. São figuras que visitam casas no Ano-Novo lunar da região, perguntam por crianças preguiçosas, e os pais respondem que elas estão boas. Parecem oni para o visitante apressado. São um costume de vila, com o seu calendário. Chamá-los de “os oni de Akita” é aproximado. Ouvir o nome local é melhor.

O que o oni faz na língua

Chamar uma pessoa de oni é pesado. Pode ser o chefe cruel, a fome, a sogra de um conto antigo contado por quem não tinha para onde sair. A palavra guarda o de dentro que se comporta como de fora: alguém da casa que age como invasor. Também guarda o estrangeiro monstruoso de crônicas de guerra, um uso que hoje se lê com a distância crítica devida. O folclore não é inocente só porque é antigo. A máscara às vezes serviu para desumanizar gente real. Registrar isso impede que o verbete vire só festa de soja.

Ao mesmo tempo, a festa existe e é querida. Crianças esperam o Setsubun o ano inteiro. Templos distribuem sacos de grãos. A televisão mostra o primeiro arremesso de uma celebridade. Nada disso anula a gravidade possível da palavra. Uma cultura aguenta as duas coisas se o texto não escolher só a fofa.

Oni, tengu, inverno

O tengu castiga o orgulho na montanha e pode virar mestre. A yuki-onna é o clima com rosto de mulher. O oni é mais frontal: chifre, clava, fora. Quando um conto mistura esses seres, cada um ainda entra pela sua porta. Um bando de oni no castelo e um tengu na floresta ao redor não são “monstros” intercambiáveis. São funções. Trocar uma pela outra muda a moral.

O kappa, na água, ainda negocia com pepino. O oni do Setsubun não negocia. Ele sai. Essa recusa de acordo é o núcleo pedagógico da festa. Nem todo mal da casa se resolve com conversa. Algum se resolve com a porta.

Como participar sem transformar a festa em piada

Quem está no Japão no começo de fevereiro pode comprar soja torrada própria para o Setsubun e seguir o que a casa ou o templo indicar. A máscara de oni se usa se houver um papel combinado, não para assustar desconhecidos na rua. A frase se grita para a porta, não para uma pessoa real que se queira humilhar. O grão que sobra não é munição de brincadeira no metrô.

Quem está longe pode entender a data sem fantasia obrigatória. O ponto transferível não é a soja. É a ideia de uma virada de estação em que se nomeia o que deve sair de casa: uma dívida, um hábito, um medo. O oni empresta o nome. A lista, cada um faz a sua, sem precisar de chifre de plástico.

E quem conta Momotarō para uma criança pode contar inteiro, com os três animais e a partilha dos bolinhos, em vez de pular para a luta. A expedição começa na generosidade. Sem isso, o herói seria só mais um oni com outro figurino.

Nomes, lugares e fontes

O kanji 鬼 e a kanabō organizam a imagem clássica. O Setsubun e a frase oni wa soto, fuku wa uchi são prática de calendário, visível em casas, santuários e templos todo começo de fevereiro. Momotarō é um conto de tradição oral posto em livros infantis sem um único autor antigo. Shuten-dōji pertence ao ciclo de lendas medievais. Namahage é costume de Akita, com nome próprio.

Fora o demônio, dentro a fortuna. A frase é curta porque a festa precisa caber na porta. O oni, fora dela, continua maior do que a máscara: ogro, doença, ladrão da ilha, face na telha, palavra pesada. A soja acerta o que a casa consegue expulsar. O resto pede outras histórias.

Perguntas frequentes

O que é um oni?

É um ser do folclore japonês, em geral de chifres, pele vermelha ou azul, dentes à mostra e uma clava de ferro. Representa o de fora: o perigo, a doença, o bandido da montanha, o impulso que a casa expulsa.

O que se fala no Setsubun?

A frase mais conhecida é oni wa soto, fuku wa uchi: fora o oni, dentro a fortuna. Jogam-se grãos de soja torrada, muitas vezes a idade da pessoa mais um, para expulsar o mal na véspera da primavera pelo calendário tradicional.

Oni e yokai são a mesma coisa?

Oni entra nas listas de yokai, mas é uma classe antiga e larga, com vida própria em conto, festa e templo. Nem todo yokai é oni. Nem todo oni se comporta como o mascote de um festival.

Momotarō luta contra quem?

Contra os oni da ilha de Onigashima. O menino nascido de um pêssego vai com o cachorro, o macaco e o faisão, vence os oni e recupera o que foi roubado. É um conto de herói, não um tratado sobre demônios.